5. INTERNACIONAL 10.10.12

1. INSTINTO DE PORCELANA
2. UM CAOS SEM FRONTEIRA
3. DI, MAS NO O SUFICIENTE

1. INSTINTO DE PORCELANA
Todo mundo (at os republicanos) apostava que Barack Obama venceria o debate. Todo mundo (at os democratas) reconhece que Mitt Rornney virou o jogo.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     Ann Romney, a mulher do candidato republicano  Casa Branca, conta que deu uma nica sugesto ao marido antes do debate presidencial da quarta-feira passada: Siga seu instinto. Michelle, a mulher do presidente Barack Obama, no revelou seu conselho ao marido, mas ela no estava muito feliz sentada na plateia. A noite do dia do debate coincidiu com o aniversrio de vinte anos de casamento do casal e, como se sabe, participar de um debate na frente de 70 milhes de telespectadores no  o modo mais romntico de celebrar a data. Depois de uma hora e meia de um debate excessivamente tcnico, que se concentrou em economia e sade, os instintos de Romney revelaram-se mais teis do que as bodas de porcelana de Obama. Com os instintos afiados. Romney teve verve e energia para surpreender Obama  e virou o debate a seu favor.
     Romney comportou-se como um candidato que quer vencer, enquanto Obama parecia pensar que estavam todos dispostos a ouvir mais uma preleo presidencial. Os prprios democratas reconheceram o desempenho sofrvel do presidente candidato  reeleio. O comediante Bill Maher, democrata furioso, disparou um tute durante o debate: No acredito no que estou dizendo, mas Obama parece que precisa MESMO de um teleprompter. Maher tocou em um ponto sensvel. Os adversrios espalham que Obama precisa de teleprompter at para saudar a prpria mulher nas cerimnias pblicas. Romney estava em forma. Ele vinha de uma saraivada de debates nas primrias republicanas, enquanto Obama, cujo ltimo debate foi na eleio de 2008, se mostrou enferrujado e mimado pela prerrogativa presidencial de falar sem ser interrompido ou contrariado.
     A decepo com a atuao de Obama acendeu a luz amarela no QG da campanha do presidente. Obama lidera as pesquisas, mas sempre por uma margem perigosamente estreita, e qualquer erro pode ser fatal. At a eleio, em novembro, haver outros dois debates. Sero mais importantes do que o ceticismo poltico acredita: debates presidenciais mudam o jogo, sim. Desde 1960 at agora, houve dez eleies com debates televisionados. Em trs, os debates claramente alavancaram candidaturas: a de John Kennedy em 1960, a de Ronald Reagan em 1980 e a de George W. Bush em 2000. Os trs estavam atrs nas pesquisas, mas, depois de um desempenho convincente, venceram nas urnas. Em outras duas ocasies, o candidato que estava em segundo lugar nas pesquisas venceu debates, mas perdeu nas urnas (por muito pouco): Gerald Ford em 1976 e John Kerry em 2004. O balano  que, de dez eleies, em cinco os debates televisionados tiveram impacto.
     Na semana passada, no aconteceu nada de extraordinrio capaz de produzir uma virada radical. Romney foi o claro vencedor, mas beneficiou-se das expectativas contrrias. Os prprios republicanos achavam que Obama se sairia melhor. Nas pesquisas, 57% dos eleitores apostavam no presidente e apenas 33% em Romney. Ao contrariar as expectativas, a vitria de Romney adquiriu uma dimenso de surpresa, mas no chegou perto de ser um massacre.
     Ainda no foi medido o impacto do debate no eleitorado. Antes, s 13% dos eleitores de Romney e 16% dos de Obama diziam que o desempenho dos candidatos poderia mudar seu voto.  pouca gente, mas, numa eleio disputada, pode fazer toda a diferena. Para vencer, um candidato tambm precisa de sorte. E de surpresas positivas. Obama, aparentemente, vai bem nesses quesitos. O efeito do debate pode ser neutralizado pela surpresa de sexta-feira: pela primeira vez no governo Obama, o desemprego ficou abaixo de 8%. Deu 7,8% em setembro. No  grande coisa, mas, de novo, pode fazer a diferena.


2. UM CAOS SEM FRONTEIRA
A retaliao militar a um ataque com morteiros lanados da Sria em seu territrio coloca a Turquia a poucos passos de se envolver diretamente na guerra civil do pas vizinho.
DUDA TEIXEIRA

     Com uma dezena de pases enviando soldados, armas e dinheiro para ambos os lados do conflito, a guerra na Sria incorre no risco de se prolongar indefinidamente. O conflito, que j ceifou a vida de 30.000 pessoas, s acabar com a sada de cena do ditador Bashar Assad ou com uma interveno militar internacional. No que essas duas coisas sejam a soluo definitiva para a crise, pois o que vem a seguir tem o potencial para ser apenas uma nova etapa de caos. O problema  que, quanto mais o atual estgio da guerra civil durar, maior a probabilidade de degringolar num ciclo de vinganas sem fim pautado por afiliaes religiosas, como ocorre at hoje no Iraque entre sunitas e xiitas. Se o avano das foras anti-Assad est emperrado em combates quadra a quadra em cidades como Alepo, a perspectiva de uma interveno externa tornou-se mais provvel na semana passada com a deciso da Turquia de retaliar um ataque com morteiros lanados de uma base militar da Sria que mataram duas mulheres e trs crianas da mesma famlia na cidade turca de Akcakale, prxima  fronteira dos dois pases. Na quinta-feira, um dia depois das mortes, a Turquia respondeu com disparos de artilharia contra alvos no norte da Sria. Dois soldados de Assad foram feridos. No se sabe quantos morreram. No mesmo dia, o governo obteve uma autorizao do Parlamento com validade de um ano para se engajar em uma ao militar contra a Sria. No estamos interessados em uma guerra, tampouco estamos longe dela, disse o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. Quando chega o momento, a guerra se converte em chave para a paz.
     Antes do levante armado contra Assad, que comeou com protestos violentamente reprimidos em maro do ano passado, a Sria e a Turquia viviam um perodo de relaes amigveis iniciado apenas vinte anos antes. At o incio da dcada de 90, os dois pases estavam em espectros opostos do alinhamento geopoltico da Guerra Fria. A Turquia pertencia  e assim continua   Organizao do Tratado do Atlntico Norte (Otan), a aliana militar do Ocidente. A Sria era apadrinhada da Unio Sovitica e apoiava os separatistas da etnia curda na Turquia. Alguns anos aps a dissoluo do imprio sovitico, os srios fizeram as pazes com os turcos ao entregar-lhes um lder do Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), Abdullah Ocalan. O arquiteto dessa aproximao foi o ditador Hafez Assad, pai de Bashar.
     Bashar, que herdou o poder em 2000, e Erdogan, eleito em 2003, eram amigos e suas famlias passaram algumas frias juntas. Com a boa relao bilateral, a Turquia lucrava com as exportaes e a Sria fugia do isolamento internacional decorrente de seus laos com o Ir. Erdogan rompeu com Assad em junho do ano passado, um pouco depois de o regime em Damasco comear a empregar as foras militares de maneira mais contundente para reprimir o levante popular, com um grande nus para a populao civil. Os crticos de Erdogan dizem que sua solidariedade ao povo srio tem mais a ver com afinidade sectria do que com preocupao humanitria. Afinal, a maioria dos rebeldes  sunita como os turcos e luta contra um regime dominado por alauitas, uma seita minoritria na Sria. O chefe do governo turco tambm tem motivos para temer que o vcuo militar seja usado pelos curdos para dominar um bolso do territrio srio e a partir dali estender sua ambio separatista para o outro lado da fronteira. Erdogan, portanto, tem motivos para querer um desenlace rpido na Sria. Por isso permite que o Exrcito Srio Livre, o principal brao armado rebelde, use a Turquia como refgio. Essa  uma ajuda de mdio custo poltico para Erdogan. Entrar em guerra contra a Sria seria um passo mais complexo. A Otan exigiu o fim das hostilidades por parte da Sria, mas deixou claro que no far uso do artigo 5 do Tratado de Washington, que considera um ataque a um dos seus integrantes uma agresso a todos os demais. Se o fizesse, os Estados Unidos e os principais pases europeus teriam de entrar no atoleiro srio junto com a Turquia, o que todos querem evitar. H entre 5000 e 30.000 terroristas islmicos infiltrados no conflito srio. Eles se dizem combatentes anti-Assad, mas seus mtodos e objetivos so ditados pela ideologia da Al Qaeda. Na quarta-feira passada, eles cometeram uma srie de atentados suicidas em Alepo, matando trinta pessoas, na maioria civis. Se a Turquia entrar na guerra, o caos srio vai atravessar as fronteiras.


3. DI, MAS NO O SUFICIENTE
A rpida desvalorizao da moeda iraniana mostra que as sanes externas funcionam. Se vo fazer os aiatols desistir da bomba atmica,  outra histria.

     Desde a revoluo de 1979, que instaurou uma teocracia islmica comandada por aiatols, o Ir teve de se familiarizar com sanes impostas pela comunidade internacional. H mais de trinta delas em vigor, mas at recentemente todas tinham efeito limitado. Isso mudou em dezembro passado, quando o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma medida que impede o acesso  economia americana a qualquer empresa ou instituio que fizer negcios com o Banco Central do Ir. O objetivo  restringir os parceiros comerciais do pas para for-lo a desistir do plano de construir uma bomba nuclear. Com menos compradores para o seu petrleo, que representa 80% da pauta de exportaes, Teer ficou sem dlares. Em janeiro, a Unio Europeia tambm bloqueou os bens do Banco Central iraniano e proibiu novos contratos para a compra de petrleo. Os investidores externos sumiram e o rial, a moeda local, cujo nome deriva dos reais usados na Espanha no sculo XVIII, perdeu 80% do seu valor desde o incio do ano. S na semana passada, depois de o governo anunciar taxas preferenciais de cmbio para importadores de itens bsicos como remdios, a queda foi de 40%. Temendo uma desvalorizao ainda mais acentuada, os iranianos correram s casas de cmbio para trocar riais por dlares. A inflao, que est em 55% ao ano, ameaou subir ainda mais. Protestos e confrontos com a polcia ocorreram nas imediaes do Banco Central e do principal mercado da capital, Teer. Estima-se que o desemprego afete um tero da populao ativa.
     Os iranianos so quase unnimes em seu apoio ao programa nuclear nacional. Desde a guerra contra o Iraque (1980-1988), quando o ento ditador do pas inimigo, Saddam Hussein, usou armas qumicas contra civis, eles passaram a acreditar que precisam de uma bomba atmica para fazer frente aos vizinhos rabes, a Israel e, claro, aos Estados Unidos. Essa convico no impede os iranianos de pr a culpa da atual baguna econmica do pas na poltica externa do presidente Mahmoud Ahmadinejad, cujo mandato termina em agosto de 2013. O Ir gasta muito com o Hezbollah no Lbano e com o apoio ao regime srio no combate aos rebeldes, mas ningum sabe se tem dinheiro suficiente para isso, diz o economista Hossein Askan, da Universidade George Washington, nos Estados Unidos. H quase trs anos o Ir no divulga o tamanho de suas reservas internacionais. As sanes econmicas no foram criadas para punir os cidados iranianos, e sim para exercer presso sobre o governo. Acabaram por obter os dois efeitos, mas  preciso muito mais para frear o plano atmico dos aiatols.
TATIANA GIANINI


